O cálice da depravação
Por Aender Borba
Um sentimento libertário
tomou conta do discurso de muitos "cristãos" nas últimas
décadas. Se há alguns anos andar com uma bíblia debaixo do braço
era sinal de extrema coragem, pois corria-se o risco de ser taxado
“crente”, ou adjetivos do gênero, hoje, não coadunar com
algumas práticas, como por exemplo, deixar de tomar uma cervejinha
com os amigos não-cristãos é sinal de caretísse, ou
religiosidade, com apregoam alguns “pop-stars” do meio
gospel. “Crente não pode ser trouxa” como ensina o pastor da
televisão. Ai o irmão “toma posse dessa benção” e leva isso
às últimas consequências, provando assim que, o que tem sido
chamado por alguns de “cristianismo” chegou aos seu limite máximo
de perversão. Quero provar esta tese com uma imagem, que captei de
meu celular , hoje, 13 de Agosto de 2015 durante uma de minhas
oficinas em um dos projetos sociais que atendo.
Deixe-me descrever o
quadro:
Uma de minhas alunas, de
apenas 9 anos, mostrou-me este artefato, que aliás, não é estranho
encontrar nas mãos de qualquer criança que mora em uma das regiões
por onde trabalho. Para quem não reconheceu, trata-se de um pino de
cocaína. Ao notar a coloração, perguntei o que havia dentro e ela
singelamente respondeu que era suco de uva, “aquele que usa lá na
igreja”. Imediatamente, parei e fiquei pensando: “suco de uva da
Ceia do Senhor, servida em pino de cocaína?”. Curiosa e
intrigadamente, estendi a conversa por alguns instantes, com detalhes
que não cabem expor aqui, até ficar certo de que era exatamente o
que estava diante de meus olhos: um sinal sacramental servido no
“cálice da depravação humana”.
Passei o dia refletindo
sobre aquela trágica combinação. Milhares de perguntas me vieram à
cabeça. Lembrei-me da canção - Sagrado - do amigo e poeta, Marcos Almeida, que
diz: "É que o sagrado se tornou hilário, ascendeu em
Abril, se espatifou em Maio. E o que é que ficou? Ficou o riso
amarelo!"A que ponto chegamos? E logo eu que já ouvi
histórias de alunos que possuem parentes envolvidos com o tráfico
que, antes de saírem para “trabalhar” (entenda-se, roubar, ou
traficar) oram para que Deus os proteja, inclusive dos policiais
enviados por Satanás.
Algumas conclusões foram
inevitáveis:
1) o prejuízo causado por
um certo tipo de teologia inescrupulosa (a da prosperidade) é
inimaginável. Ela é capaz de suscitar no ser humano o que ele tem
de pior, obviamente, com o bloqueio necessário do entorpecimento dos
sentidos, da moral, da sensibilidade, da alteridade e do núcleo duro
do próprio Evangelho: a suficiência da Graça, conforme II Cor
12:9.
2) deste problema,
vários outros emergem, mas gostaria de ressaltar apenas um. O que
projetos sociais ditos cristãos e agências missionárias tem
chamado de “evangelismo”? Não com pouca frequência, ouço
alguns cristãos dizerem (especialmente nas missões urbanas) que seu
objetivo principal não é educar ou criar ações que causem um
impacto de curto ou longo prazo na vida das famílias que atendem,
com por exemplo: ensinar a ler e escrever, produzir repertório para
livrar essas pessoas de seu cativeiro cultural, mostrar sinais de
beleza, etc. Eles insistem que seu objetivo é evangelizar. A
pergunta então é: com qual evangelho? O da graça, que liberta o
homem de si mesmo e o coloca numa relação de liberdade para cumprir
os mandamentos do Senhor, ou outro qualquer, que afirma a autonomia
humana e seu autocentramento narcisista? O Evangelho de Jesus, que é
para o homem todo (isso envolve todos os níveis de transformação
social, comunitária, pessoal, emocional, moral e espiritual), ou o
evangelho do lobo, que abusa da alienação dos pobres, retirando até
o seu último tostão com falsas promessas de mudança de vida?
É importante
esclarecer que não acho que o pobre é essencialmente bom e nem que
todo pobre será salvo porque é pobre. Não penso que todos são
preguiçosos e vagabundos e por isso merecem estar na condição em
que se encontram. Penso que faz parte da vocação cristã,
especialmente na atividade missionária, que é de onde me posiciono,
interferir nas estruturas caídas da criação e apregoar aquilo que
o Evangelho é capaz de fazer, tanto na vida das pessoas que se
inclinam a ele, quanto no ambiente criacional que os envolve.
Ainda com muitas
questões a pensar, conclamo aqueles que lerem este artigo a
interpretarem esta foto e todo ao quadro que ela é capaz de fazer
emergir.
Concluo afirmado: Não existe evangelismo sem Evangelho!! Não existe Evangelho sem Cruz!
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